Qual é o grilo?
Anoitece.
Um grilo em código Morse fala comigo.
Criiiii... Criii... Criiiii...
No lento e sincopado script,
espero no compasso sem passo
das minhas incertezas.
E são muitas.
Vasculho desiludida a vida.
Sintomas e abstinências de ser incompleta.
O sustenido da conversa revela,
o desejo de ser quiçá o desejado.
E entre dentes, despertar vontades não exercidas.
E entre carnes, murmurar a vontade de uma existência
que se esvai em prantos e partes.
Nada e não mais importa entre flores.
Murchos nossos sonhos
resta a desconfiança dos insensatos que partem.
Sonho. Como os grilos.
Em noites melhores.
E penso ruminando incoerências:
Quem é o pecador?
Aquele que tenta ou aquele que é tentado?
Quem o desejo aflora ou quem o desejo foi um dia contido?
Quem trará para si a maldição do sonho vivido?
E sofrerá a pena dos condenados pelos deuses, pela
eternidade.


