sexta-feira, 8 de abril de 2022


 Qual é o grilo?







Anoitece.

Um grilo em código Morse fala comigo.

Criiiii... Criii... Criiiii...

No lento e sincopado script, 

espero no compasso sem passo

das minhas incertezas.

E são muitas.

Vasculho desiludida a vida.

Sintomas e abstinências de ser incompleta.


O sustenido da conversa revela, 

o desejo de ser quiçá o desejado.

E entre dentes, despertar vontades não exercidas.

E entre carnes, murmurar a vontade de uma existência

que se esvai em prantos e partes.

Nada e não mais importa entre flores.

Murchos nossos sonhos

resta a desconfiança dos insensatos que partem.


Sonho. Como os grilos.

Em noites melhores.

E penso ruminando incoerências:

Quem é o pecador? 

Aquele que tenta ou aquele que é tentado? 

Quem o desejo aflora ou quem o desejo foi um dia contido?

Quem trará para si a maldição do sonho vivido?

E sofrerá a pena dos condenados pelos deuses, pela

eternidade.




 A vassoura Marjorie 


Marjorie,  a vassoura,  nasceu em 23 de dezembro de um ano qualquer. Fruto das mãos ágeis de um marceneiro falido e feita de partes alheias. Marjorie era completa.


Seus primeiros dias de vida, no depósito entre iguais e muitos outros diferentes, foi divertido.  Ouvia atenta, falas em línguas de partes distantes.


Mas foi um dia desses, em que estamos distraídos,  que a vida de Marjorie mudou. Acostumada aos elogios e galanteios, afinal fazia juz! Era alta e reta e sua palha, de raro tom dourado, tão bem atados, davam-lhe com certeza, ares de princesa. 


Muito diferente das comuns piaçavas, seu destino era estar nos palácios, segura em mãos que cumprem anos, corredores e aposentos, largos e caprichosos. E certamente dormindo quentinha, em abastados armários. 


Mas, contam as escovas, entristecidas, que pobre Marjorie! Esquecida  e encostada, foi vista sem ânimo nos sonhos. Fez-se em fim, no dia 7 de maio, poucos anos depois, em brasas.