Constrangido, o parafuso suspirou para o alicate. Algo ali não se encaixava como deveria. Girando sobre si mesmo, desviou o olhar, buscando uma compensação. Entre dentes afiados e sem saída, o alicate buscou nas ferramentas, algo que compensasse sua inexatidão.
E viu pregos, parentes distantes, olharem curiosos para sua reflexão. Que sentido teria querer ser o que não era, somente para se ajustar àquela situação. Pensou em diferentes momentos em que, perfeito para a ocasião, só e somente ele, deu cabo de muitas situações.
Mas queria mesmo, contornar seu amigo parafuso e retirá-lo da parede, já sem uso por tanto tempo... e trazê-lo de volta à caixa de nascimento, junto aos semelhantes em utilidade. Olhou para o criador e se esforçou para novamente ser brilhante. E segurando firme em um pequeno traço de aço, forçou a passagem pela anelada cabeça do amigo.
Rangindo em farpas dentadas, corroeu a poeira do esquecimento e mesmo que, esfarelando a parede que caía em pó ao chão, trouxe firme o parafuso já enferrujado para fora de prisão caiada. Mas qual surpresa não foi perceber que, já sem uso e utilidade, viu o companheiro ser atirado ao lixo imóvel para novamente ser esquecido.



