quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A ferrugem e o esquecimento



Constrangido, o parafuso suspirou para o alicate. Algo ali não se encaixava como deveria. Girando sobre si mesmo, desviou o olhar, buscando uma compensação.  Entre dentes afiados e sem saída, o alicate buscou nas ferramentas, algo que compensasse sua inexatidão. 

E viu pregos, parentes distantes, olharem curiosos para sua reflexão. Que sentido teria querer ser o que não era, somente para se ajustar àquela situação. Pensou em diferentes momentos em que, perfeito para a ocasião, só e somente ele, deu cabo de muitas situações. 

Mas queria mesmo, contornar seu amigo parafuso e retirá-lo da parede, já sem uso por tanto tempo... e trazê-lo de volta à caixa de nascimento, junto aos semelhantes em utilidade. Olhou para o criador e se esforçou para novamente ser brilhante. E segurando firme em um pequeno traço de aço, forçou a passagem pela anelada cabeça do amigo. 

Rangindo em farpas dentadas, corroeu a poeira do esquecimento e mesmo que, esfarelando a parede que caía em pó ao chão, trouxe firme o parafuso já enferrujado para fora de prisão caiada. Mas qual surpresa não foi perceber que, já sem uso e utilidade, viu o companheiro ser atirado ao lixo imóvel para novamente ser esquecido.

Nenhum comentário: