sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Vida em comunidade

 

Bem, quem nunca? Teve que dividir espaços comuns com pessoas nem tão comuns assim, não é mesmo!? Estranhos que sinalizam por semelhanças inexistentes...
Foi assim, um dia, no elevador. Sabe, onde moro ainda fazem a distinção entre social e serviço. Particularmente, sou muito mais serviço. Tô sempre ocupada mesmo. E ainda acredito que lazer é uma ocupação, algo que preenche uma condição necessária à sobrevivência e portanto, um serviço a minha saúde.
Mas vamos ao que interessa. Domingão e lá vou eu com Diana, minha adorada companheira canina, para um longo passeio. Aperto o botão do elevador e eis que, depois de uma longa espera...chega o tal elevador social. Juro, nem pensei e entrei rapidamente antes que me esquecessem no andar.
Eu, politicamente incorreta em meu traje mais para mendigo chique que para dondoca dos jardins, eis que enfrento o olhar congelante da Dona P. B. (Vou omitir nomes para preservar a vergonha alheia).
- Este elevador não é para cães, disse ela enquanto uma brisa glacial invadia o pequeno espaço entre nós.
Me fiz de morta enquanto ajustava o som em meus fones de ouvido. Ela repetiu a frase agora adivinhada pela leitura labial.
- Bom dia!, respondi, como quem se recusa a participar daquela realidade. E que elevador mais lento! Ele sempre demorava tanto assim?
Olhei para P. B.. O rosto expressava duras críticas ao meu comportamento, que feria seu código de ética de maneira cruel e insensível. Tive dó. Ela segurou meu braço. Diana rosnou e depois latiu. Ela gritou. Diana avançou e o caos se fez de maneira irreversível.
Lutei com meus sentimentos, porque soube me solidarizar com a surpresa do ataque, mas também compreendi a atitude defensiva de minha companheira. Rapidamente repreendi Diana que, recuou de olhos grudados na opressora. Achei mesmo que P. B. arrancaria seus adereços esteticamente partilhados em consumos midiáticos e os atiraria em minha cara. Ah! se pudesse teria feito. De raiva. Pura indignação contra a natureza vulgar do autêntico. Do simples e comum.
As ameaças percorreram o vazio vertical, até finalmente virarem insultos em publico, quando o pequeno elevador chegou ao térreo. Agora, diante de plateia, a cena trágica tomou enredo de novela. Aos brados, entre cuspes, afirmou que minha transgressão não passaria desapercebida. Pelos condôminos e pelo mundo também! Certamente eu seria execrada em público e castigada com pesadas multas.
Seria então condenada ao repúdio social. Eliminada das rodas alegres e confraternizantes que comentavam a vida alheia, entre sorrisos cínicos de pretensa superioridade. E ali, banida das trincheiras do pensamento dominante, seria considerada fora das convenções reinantes, foragida das regras criadas por uns, para apreensão de todos. Alguém mesmo perguntou, o que eu achava da situação?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

 Vida de rei



Averaldo era só preguiça. Tarde da noite, deitava na cama e sonhava com dias distantes. E acordava assim...longe de qualquer lugar.


  • Acorda Averaldo, você não vai trabalhar?


Mas pensar assim, não dava. Construídos os castelos mentais, pouco sobrava para a realidade. 

  • Mas acabei de chegar do trabalho!


Longe disso, sua mãe balançava a cabeça. Preocupada. 

  • Como assim Averaldo? Tá dormindo ainda?


Que realidade era aquela, cuja crueldade doía nos olhos.  A barriga vazia, a roupa amassada, o chão batido.

  • Deixa mãe, hoje tô cansado de viver. 


Deitado, olhos fechados, lembrou da vida que tinha lá do outro lado e gemeu baixinho. Uma imagem rapidamente se refez como lembrança vivida. Sentado à longa mesa, repleta de caprichosos regalos, contemplou seu enorme reino e seus participantes.


  • Que é isso Averaldo? Acorda meu rei!






sexta-feira, 8 de abril de 2022


 Qual é o grilo?







Anoitece.

Um grilo em código Morse fala comigo.

Criiiii... Criii... Criiiii...

No lento e sincopado script, 

espero no compasso sem passo

das minhas incertezas.

E são muitas.

Vasculho desiludida a vida.

Sintomas e abstinências de ser incompleta.


O sustenido da conversa revela, 

o desejo de ser quiçá o desejado.

E entre dentes, despertar vontades não exercidas.

E entre carnes, murmurar a vontade de uma existência

que se esvai em prantos e partes.

Nada e não mais importa entre flores.

Murchos nossos sonhos

resta a desconfiança dos insensatos que partem.


Sonho. Como os grilos.

Em noites melhores.

E penso ruminando incoerências:

Quem é o pecador? 

Aquele que tenta ou aquele que é tentado? 

Quem o desejo aflora ou quem o desejo foi um dia contido?

Quem trará para si a maldição do sonho vivido?

E sofrerá a pena dos condenados pelos deuses, pela

eternidade.




 A vassoura Marjorie 


Marjorie,  a vassoura,  nasceu em 23 de dezembro de um ano qualquer. Fruto das mãos ágeis de um marceneiro falido e feita de partes alheias. Marjorie era completa.


Seus primeiros dias de vida, no depósito entre iguais e muitos outros diferentes, foi divertido.  Ouvia atenta, falas em línguas de partes distantes.


Mas foi um dia desses, em que estamos distraídos,  que a vida de Marjorie mudou. Acostumada aos elogios e galanteios, afinal fazia juz! Era alta e reta e sua palha, de raro tom dourado, tão bem atados, davam-lhe com certeza, ares de princesa. 


Muito diferente das comuns piaçavas, seu destino era estar nos palácios, segura em mãos que cumprem anos, corredores e aposentos, largos e caprichosos. E certamente dormindo quentinha, em abastados armários. 


Mas, contam as escovas, entristecidas, que pobre Marjorie! Esquecida  e encostada, foi vista sem ânimo nos sonhos. Fez-se em fim, no dia 7 de maio, poucos anos depois, em brasas.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Penas de pavão

Penas de pavão rodopiam
à minha frente
vertiginosa imagem
conclamam superiores espíritos

Benevolentes anciões
passeiam sobre folhas secas
para alojar o destino humano

Despenco em memórias
revivendo nos mínimos detalhes
as flores fora da estação

E penso, maravilhada
que tudo então é possível



sábado, 3 de junho de 2017

A velhice

Chega antes de você perceber
e de repente
é como se seu corpo
se cansasse de você
E começa então um processo
que se arrasta nos minutos
imperceptíveis
em que pensamos rejuvenescer
bate lento e profundo
o sentimento de querer reviver
ou recontar a própria história
Flocos de neve
flutuam numa mente extasiada
longe dos processos que
justificam outras vidas
uivamos loucos para a lua cheia
e acreditamos em poderes invisíveis
e oramos para seres imaginários
bate fundo o coração
adormecido e desleixado
livre da obrigação de amar e ser amado
Flutua floco de neve
nunca visto...


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Vítimas e agressores

Partilhamos o mesmo pão
E fazemos cortes de cabelo
Cantamos nossas músicas favoritas
Quem somos?
De repente o desperdício vira desespero
E fazemos vozes grossas de medo
Meço seu desacordo
Pela frequência de minha desobediência
Frente ao corriqueiro
desmaio em revoluções
Tic tac
Me assombra a vida
que insiste em me rodear
E eu desfalida
Sustento
Vampira a manhã
Lambe meu átimo
Me liquefaz
Como prosseguir?