Foi assim, um dia, no elevador. Sabe, onde moro ainda fazem a distinção entre social e serviço. Particularmente, sou muito mais serviço. Tô sempre ocupada mesmo. E ainda acredito que lazer é uma ocupação, algo que preenche uma condição necessária à sobrevivência e portanto, um serviço a minha saúde.
Mas vamos ao que interessa. Domingão e lá vou eu com Diana, minha adorada companheira canina, para um longo passeio. Aperto o botão do elevador e eis que, depois de uma longa espera...chega o tal elevador social. Juro, nem pensei e entrei rapidamente antes que me esquecessem no andar.
Eu, politicamente incorreta em meu traje mais para mendigo chique que para dondoca dos jardins, eis que enfrento o olhar congelante da Dona P. B. (Vou omitir nomes para preservar a vergonha alheia).
- Este elevador não é para cães, disse ela enquanto uma brisa glacial invadia o pequeno espaço entre nós.
Me fiz de morta enquanto ajustava o som em meus fones de ouvido. Ela repetiu a frase agora adivinhada pela leitura labial.
- Bom dia!, respondi, como quem se recusa a participar daquela realidade. E que elevador mais lento! Ele sempre demorava tanto assim?
Olhei para P. B.. O rosto expressava duras críticas ao meu comportamento, que feria seu código de ética de maneira cruel e insensível. Tive dó. Ela segurou meu braço. Diana rosnou e depois latiu. Ela gritou. Diana avançou e o caos se fez de maneira irreversível.
Lutei com meus sentimentos, porque soube me solidarizar com a surpresa do ataque, mas também compreendi a atitude defensiva de minha companheira. Rapidamente repreendi Diana que, recuou de olhos grudados na opressora. Achei mesmo que P. B. arrancaria seus adereços esteticamente partilhados em consumos midiáticos e os atiraria em minha cara. Ah! se pudesse teria feito. De raiva. Pura indignação contra a natureza vulgar do autêntico. Do simples e comum.
As ameaças percorreram o vazio vertical, até finalmente virarem insultos em publico, quando o pequeno elevador chegou ao térreo. Agora, diante de plateia, a cena trágica tomou enredo de novela. Aos brados, entre cuspes, afirmou que minha transgressão não passaria desapercebida. Pelos condôminos e pelo mundo também! Certamente eu seria execrada em público e castigada com pesadas multas.
Seria então condenada ao repúdio social. Eliminada das rodas alegres e confraternizantes que comentavam a vida alheia, entre sorrisos cínicos de pretensa superioridade. E ali, banida das trincheiras do pensamento dominante, seria considerada fora das convenções reinantes, foragida das regras criadas por uns, para apreensão de todos. Alguém mesmo perguntou, o que eu achava da situação?


Nenhum comentário:
Postar um comentário