sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A luz entre as coisas


Vou contar uma história para vocês. A história de Entiel. Entiel foi um desses seres incomuns, sabe, desses que pouca gente conhece, mas que, quando conhece, aprecia sua honestidade e principalmente, a boa vontade.
Entiel viveu perto do mar. Ele gostava da brisa fresca que soprava do mar em dias de primavera e temia as tempestades iluminadas por raios nas tardes de verão. Mas principalmente, Entiel sonhava com lugares distantes, viajando por naves aquáticas e aéreas da sua imaginação. Ali, senhor dos mares e dos ares, se sentia magnânimo. Completo. Decente.
Certa feita, menino de tudo, viu chegar à areia, pedaços toscos de madeira partida. Com esmero, apertou, amarrou, prendeu e se lançou ao mar, feito marujo experiente em busca de um tesouro. As ondas, estas selvagens amigas dos ventos, invariavelmente o traziam de volta a praia. E ao anoitecer, já cansado de remar e de sonhar, atracou sua brava nau que, presa à areia, sucumbiu à noite em descanso.


Também Entiel foi descansar, mas exausto, recostou a cabeça em seu sonho e dormiu. E ali, naquele manto escuro e misterioso, ele venceu as ondas e submergiu em um mundo desconhecido. Onde homens sem coragem não ousam entrar, e onde meninos curiosos assombram com olhos brilhantes, obscuros troncos esburacados pela passagem dos anos.
Entiel ergueu a vista aos céus e viu, de relance, o senhor do lugar. Ora enrugado em tramas antigas, ora reluzente na jovialidade do dia que nasce, ele teve consciência da sua presença. Da presença de todos. E de tudo. Surpreso, tomada pela inexperiência da juventude, teve medo e correu. Foi a primeira vez que Entiel viu o tempo.
Outra feita, já em idade mais adiantada e mesmo assim, sem conseguir inibir seus sonhos, subiu no cajueiro, velho habitante da vizinhança e sem perceber ao certo como, se lançou ao ar como os pássaros empurrados por suas mães para aprenderem a voar. E ali, naquele breve momento em que flutuou vencendo a gravidade da situação, novamente apurou sua percepção e aprendeu sobre o espaço que vibra em uníssono entre nós.
E viu as folhas, surgirem e caírem em ritmos distintos acompanhando prestimosas, os desígnios dos céus. Sem contestar, sem ao menos lamentar o pouco que tinham, mas exultantes, respirarem aliviadas pelo dever cumprido em sigilo, reverenciando o guardião da vontade divina.
Viu também a seiva viva, alimento brilhante que percorria longas vias da vida pulsante em pequenos auréolas de luz. Viu o ritmo alucinante que desdém da perplexidade daqueles que ousam percebê-lo, mesmo que distraídos de si e do fim. Viu o alimento da alma, que se sobrepõe ao egoísmo humano, ao amor da criação pela criatura criada.
Viu pares se tornarem solitários e distintos. Viu as presas se tornarem algozes e viu as vítimas serem os caçadores e então, se questionou sobre a qualidade da realidade observada. E percebeu que nada estava além de si mesmo ou do que cria ser possível. E viu mil olhos, ora chorosos, ora distantes e vazios, observarem a sua queda, indiferentes.
E muito tempo depois, Entiel já distante da mocidade, cavou na areia da praia. E cavou bem fundo para ali caberem seus sonhos. Sua nau e seu cajueiro. E também suas aventuras e, em desespero, pediu ao senhor da vida, que a experiência vivada nas ondas, nas folhas, na seiva, não fossem perdidas na escuridão da partida.
Suplicou misericórdia pela concórdia da sua existência na linha do tempo e pediu que não desaparecesse por completo da memória do mundo. E restasse dele, uma história, uma brisa, um raio, um voar desperto de alguém que ousou, em diferentes momentos, se distanciar de todos, somente para acrescentar alguns poucos tons, a mais uma aurora.

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