Assim vivi meus dias aqui na terra. Muitos deles perdida em meio ao caos dos acontecimentos, das pessoas que, irrefletidas, não espelhavam seus verdadeiros sentimentos. Aprendi com o tempo a olhar com os olhos sem julgamento. A ver as buscas alheias como anseios e devaneios. Muitos, muitos mesmos, repetem suas condições. Inexatas.
Eu também andei em círculos. E causei consequências previstas em tempos distantes. Foram somente elos que se moviam pela mesma corrente chamada de destino. Não, não foi fácil percebê-la e heroicamente, não mais suportar o peso da pedra. E deixá-la lá, montanha abaixo e seguir livre das amarras das minhas escolhas. Perdoei-me.
Num gesto magnânimo, busquei o equilíbrio dos argonautas em suas desventuras e pasmem, sobrevivi a mim mesma, às minhas toscas decisões. E em um dia de chuva, meu coração percebeu a luz que ainda assim, me permitiu vislumbrar cenas mais simples, amores mais puros, canções mais singelas.
E amanheci com a sensação de ser possível, tudo e qualquer coisa. Entrelinhas escritas e revistas pelas lembranças de infância. Chegada à maturidade, perceber na alma o grito silencioso da sabedoria buscada em sonhos, em delírios e devaneios, a maioria deles, aparentemente, sem sentido.
E que mais poderia eu, distante dos traumas que alicerçaram uma existência, acreditar com a inocência dos culpados, das vítimas autoimpostas por cruéis julgamentos, ter enfim, alcançado a absolvição dos meus pecados, a remissão na misericórdia da criação. Implacável, nem deixa sem volta toda ida, nem se cala diante das injustiças.
Melhor seria então, cumprir a pena dos desvalidos em silêncio presos em torres camufladas em florestas distantes. E ali, no vazio da solidão dos que contemplam a si mesmos, apreender a justa troca de posição: ora servo ora senhor, ora vítima ora algoz. E por fim desfalecidos, pedir à clemência divina, um clamor, um suspiro, que traga alento à dor dos enforcados e ainda vivos.

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