sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Sorvete na praia

As boas recordações da infância permitem que nossas almas, cansadas na maturidade, fechem os olhos e sintam o cheiro gostoso da comida de domingo, da roupa nova, dos presentes de Natal.

Claro, ficam em nossos corações como lembranças preciosas de tempos passados. Mesmo que para muitos, poucos sejam os momentos, sempre sobra um abraço, uma bala, uma vitrine iluminada, um pequeno desejo satisfeito.
É assim que, algumas vezes me pego em devaneios quentes das manhãs de verão na praia, entre baldes e conchas, fugindo ou enfrentando ondas, construindo castelos de areia.
- Ei! gritou o meu irmão e logo a bola me atingiu em cheio nas costas. Virei enfurecida, já pronta para derramar lágrimas de vingança e ódio quando me deparei com seu sorriso amplo e fácil, iluminando seu rosto, me chamando para a brincadeira.
Rápida, atirei meu baldinho cheio de água do mar que encheria o fosso do palácio real e saí em disparada atrás do meu irmão:
- Seu monstro! disse aos berros, correndo entre pulinhos como um coelho assustado enquanto meu irmão, com olhos brilhantes de caçador, se desvencilhada de mim, acrobático.
- Sua boba! Você não me pega! E correndo em direção ao meu precioso castelo, como um ogro amaldiçoado por bruxas de narizes com verrugas enormes, em um único salto, desfez meus sonhos, reduzindo meu árduo trabalho ao que era antes... somente areia.
Parei de imediato. Meu pequeno coração batia forte. Antes surpreso com a brincadeira e por que não dizer, feliz até. Mas ver meu preciso esforço, minha melhor obra aquele dia, meu palácio intuído como maravilha da arquitetura gótica-medieval, ah! Aquilo gelou-me em desaforo.
Cerrei os olhos conjurando aos céus por uma revanche. Em silêncio, sentei-me constrangida com o mundo e olhei para minhas mãos. Esperei por consolação divina. Nada aconteceu. Jurei vingança!
Minha mãe solidária pôs um fim ao conflito e nos chamou para tomarmos um delicioso sorvete. Isso ajudou e muito para que, meu humor aos poucos, se refrescasse. Com meus ânimos já revigorados, vi meu irmão lamber seu gelado com visível prazer. Tanto encanto serviu para que distraído, não visse a pedra no caminho.


Seu tombo foi mesmo engraçado! Tentando salvar seu sorvete, desabou no chão sem amparo ou resistência. Desengonçado, viu seu sorvete desmanchar-se sem sobras na areia quente, ávida pela água doce e perfumada que escorria desprotegida.
Juro. Entre a raiva e a visão do desconsolo de meu irmão, sobreviveu o arrependimento da maldição enviada. Criança acha mesmo que é responsável por tudo! Vi meu irmão chateado e Infeliz e isso doeu-me. Mais que ver meu castelo destruído, que rapidamente foi refeito.
Ali no chão, jazia uma reputação acrobática dos que nunca caem, não erram milímetros calculados com precisão geométrica. Vi meu irmão envergonhado com seu desajeito e perda. Não do sorvete, mas da ideia que lhe ensinaram, de que jamais poderia cair...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A torre camuflada


 Eu penso com a alma e sinto com meu coração. Isso significa que a intuição sobre coisas e pessoas, ressoa dentro de mim como uma nota vibrando em uma composição. Vê-la separada da música, muitas vezes torna-a incompreensível. Mas quando ouvimos a totalidade, percebemos, sentido, significado. 

 Assim vivi meus dias aqui na terra. Muitos deles perdida em meio ao caos dos acontecimentos, das pessoas que, irrefletidas, não espelhavam seus verdadeiros sentimentos. Aprendi com o tempo a olhar com os olhos sem julgamento. A ver as buscas alheias como anseios e devaneios. Muitos, muitos mesmos, repetem suas condições. Inexatas. 

 Eu também andei em círculos. E causei consequências previstas em tempos distantes. Foram somente elos que se moviam pela mesma corrente chamada de destino. Não, não foi fácil percebê-la e heroicamente, não mais suportar o peso da pedra. E deixá-la lá, montanha abaixo e seguir livre das amarras das minhas escolhas. Perdoei-me.
 
 Num gesto magnânimo, busquei o equilíbrio dos argonautas em suas desventuras e pasmem, sobrevivi a mim mesma, às minhas toscas decisões. E em um dia de chuva, meu coração percebeu a luz que ainda assim, me permitiu vislumbrar cenas mais simples, amores mais puros, canções mais singelas. 

 E amanheci com a sensação de ser possível, tudo e qualquer coisa. Entrelinhas escritas e revistas pelas lembranças de infância. Chegada à maturidade, perceber na alma o grito silencioso da sabedoria buscada em sonhos, em delírios e devaneios, a maioria deles, aparentemente, sem sentido. 

 E que mais poderia eu, distante dos traumas que alicerçaram uma existência, acreditar com a inocência dos culpados, das vítimas autoimpostas por cruéis julgamentos, ter enfim, alcançado a absolvição dos meus pecados, a remissão na misericórdia da criação. Implacável, nem deixa sem volta toda ida, nem se cala diante das injustiças. 

 Melhor seria então, cumprir a pena dos desvalidos em silêncio presos em torres camufladas em florestas distantes. E ali, no vazio da solidão dos que contemplam a si mesmos, apreender a justa troca de posição: ora servo ora senhor, ora vítima ora algoz. E por fim desfalecidos, pedir à clemência divina, um clamor, um suspiro, que traga alento à dor dos enforcados e ainda vivos.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A luz entre as coisas


Vou contar uma história para vocês. A história de Entiel. Entiel foi um desses seres incomuns, sabe, desses que pouca gente conhece, mas que, quando conhece, aprecia sua honestidade e principalmente, a boa vontade.
Entiel viveu perto do mar. Ele gostava da brisa fresca que soprava do mar em dias de primavera e temia as tempestades iluminadas por raios nas tardes de verão. Mas principalmente, Entiel sonhava com lugares distantes, viajando por naves aquáticas e aéreas da sua imaginação. Ali, senhor dos mares e dos ares, se sentia magnânimo. Completo. Decente.
Certa feita, menino de tudo, viu chegar à areia, pedaços toscos de madeira partida. Com esmero, apertou, amarrou, prendeu e se lançou ao mar, feito marujo experiente em busca de um tesouro. As ondas, estas selvagens amigas dos ventos, invariavelmente o traziam de volta a praia. E ao anoitecer, já cansado de remar e de sonhar, atracou sua brava nau que, presa à areia, sucumbiu à noite em descanso.


Também Entiel foi descansar, mas exausto, recostou a cabeça em seu sonho e dormiu. E ali, naquele manto escuro e misterioso, ele venceu as ondas e submergiu em um mundo desconhecido. Onde homens sem coragem não ousam entrar, e onde meninos curiosos assombram com olhos brilhantes, obscuros troncos esburacados pela passagem dos anos.
Entiel ergueu a vista aos céus e viu, de relance, o senhor do lugar. Ora enrugado em tramas antigas, ora reluzente na jovialidade do dia que nasce, ele teve consciência da sua presença. Da presença de todos. E de tudo. Surpreso, tomada pela inexperiência da juventude, teve medo e correu. Foi a primeira vez que Entiel viu o tempo.
Outra feita, já em idade mais adiantada e mesmo assim, sem conseguir inibir seus sonhos, subiu no cajueiro, velho habitante da vizinhança e sem perceber ao certo como, se lançou ao ar como os pássaros empurrados por suas mães para aprenderem a voar. E ali, naquele breve momento em que flutuou vencendo a gravidade da situação, novamente apurou sua percepção e aprendeu sobre o espaço que vibra em uníssono entre nós.
E viu as folhas, surgirem e caírem em ritmos distintos acompanhando prestimosas, os desígnios dos céus. Sem contestar, sem ao menos lamentar o pouco que tinham, mas exultantes, respirarem aliviadas pelo dever cumprido em sigilo, reverenciando o guardião da vontade divina.
Viu também a seiva viva, alimento brilhante que percorria longas vias da vida pulsante em pequenos auréolas de luz. Viu o ritmo alucinante que desdém da perplexidade daqueles que ousam percebê-lo, mesmo que distraídos de si e do fim. Viu o alimento da alma, que se sobrepõe ao egoísmo humano, ao amor da criação pela criatura criada.
Viu pares se tornarem solitários e distintos. Viu as presas se tornarem algozes e viu as vítimas serem os caçadores e então, se questionou sobre a qualidade da realidade observada. E percebeu que nada estava além de si mesmo ou do que cria ser possível. E viu mil olhos, ora chorosos, ora distantes e vazios, observarem a sua queda, indiferentes.
E muito tempo depois, Entiel já distante da mocidade, cavou na areia da praia. E cavou bem fundo para ali caberem seus sonhos. Sua nau e seu cajueiro. E também suas aventuras e, em desespero, pediu ao senhor da vida, que a experiência vivada nas ondas, nas folhas, na seiva, não fossem perdidas na escuridão da partida.
Suplicou misericórdia pela concórdia da sua existência na linha do tempo e pediu que não desaparecesse por completo da memória do mundo. E restasse dele, uma história, uma brisa, um raio, um voar desperto de alguém que ousou, em diferentes momentos, se distanciar de todos, somente para acrescentar alguns poucos tons, a mais uma aurora.

Vida em comunidade

 

Bem, quem nunca? Teve que dividir espaços comuns com pessoas nem tão comuns assim, não é mesmo!? Estranhos que sinalizam por semelhanças inexistentes...
Foi assim, um dia, no elevador. Sabe, onde moro ainda fazem a distinção entre social e serviço. Particularmente, sou muito mais serviço. Tô sempre ocupada mesmo. E ainda acredito que lazer é uma ocupação, algo que preenche uma condição necessária à sobrevivência e portanto, um serviço a minha saúde.
Mas vamos ao que interessa. Domingão e lá vou eu com Diana, minha adorada companheira canina, para um longo passeio. Aperto o botão do elevador e eis que, depois de uma longa espera...chega o tal elevador social. Juro, nem pensei e entrei rapidamente antes que me esquecessem no andar.
Eu, politicamente incorreta em meu traje mais para mendigo chique que para dondoca dos jardins, eis que enfrento o olhar congelante da Dona P. B. (Vou omitir nomes para preservar a vergonha alheia).
- Este elevador não é para cães, disse ela enquanto uma brisa glacial invadia o pequeno espaço entre nós.
Me fiz de morta enquanto ajustava o som em meus fones de ouvido. Ela repetiu a frase agora adivinhada pela leitura labial.
- Bom dia!, respondi, como quem se recusa a participar daquela realidade. E que elevador mais lento! Ele sempre demorava tanto assim?
Olhei para P. B.. O rosto expressava duras críticas ao meu comportamento, que feria seu código de ética de maneira cruel e insensível. Tive dó. Ela segurou meu braço. Diana rosnou e depois latiu. Ela gritou. Diana avançou e o caos se fez de maneira irreversível.
Lutei com meus sentimentos, porque soube me solidarizar com a surpresa do ataque, mas também compreendi a atitude defensiva de minha companheira. Rapidamente repreendi Diana que, recuou de olhos grudados na opressora. Achei mesmo que P. B. arrancaria seus adereços esteticamente partilhados em consumos midiáticos e os atiraria em minha cara. Ah! se pudesse teria feito. De raiva. Pura indignação contra a natureza vulgar do autêntico. Do simples e comum.
As ameaças percorreram o vazio vertical, até finalmente virarem insultos em publico, quando o pequeno elevador chegou ao térreo. Agora, diante de plateia, a cena trágica tomou enredo de novela. Aos brados, entre cuspes, afirmou que minha transgressão não passaria desapercebida. Pelos condôminos e pelo mundo também! Certamente eu seria execrada em público e castigada com pesadas multas.
Seria então condenada ao repúdio social. Eliminada das rodas alegres e confraternizantes que comentavam a vida alheia, entre sorrisos cínicos de pretensa superioridade. E ali, banida das trincheiras do pensamento dominante, seria considerada fora das convenções reinantes, foragida das regras criadas por uns, para apreensão de todos. Alguém mesmo perguntou, o que eu achava da situação?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

 Vida de rei



Averaldo era só preguiça. Tarde da noite, deitava na cama e sonhava com dias distantes. E acordava assim...longe de qualquer lugar.


  • Acorda Averaldo, você não vai trabalhar?


Mas pensar assim, não dava. Construídos os castelos mentais, pouco sobrava para a realidade. 

  • Mas acabei de chegar do trabalho!


Longe disso, sua mãe balançava a cabeça. Preocupada. 

  • Como assim Averaldo? Tá dormindo ainda?


Que realidade era aquela, cuja crueldade doía nos olhos.  A barriga vazia, a roupa amassada, o chão batido.

  • Deixa mãe, hoje tô cansado de viver. 


Deitado, olhos fechados, lembrou da vida que tinha lá do outro lado e gemeu baixinho. Uma imagem rapidamente se refez como lembrança vivida. Sentado à longa mesa, repleta de caprichosos regalos, contemplou seu enorme reino e seus participantes.


  • Que é isso Averaldo? Acorda meu rei!






sexta-feira, 8 de abril de 2022


 Qual é o grilo?







Anoitece.

Um grilo em código Morse fala comigo.

Criiiii... Criii... Criiiii...

No lento e sincopado script, 

espero no compasso sem passo

das minhas incertezas.

E são muitas.

Vasculho desiludida a vida.

Sintomas e abstinências de ser incompleta.


O sustenido da conversa revela, 

o desejo de ser quiçá o desejado.

E entre dentes, despertar vontades não exercidas.

E entre carnes, murmurar a vontade de uma existência

que se esvai em prantos e partes.

Nada e não mais importa entre flores.

Murchos nossos sonhos

resta a desconfiança dos insensatos que partem.


Sonho. Como os grilos.

Em noites melhores.

E penso ruminando incoerências:

Quem é o pecador? 

Aquele que tenta ou aquele que é tentado? 

Quem o desejo aflora ou quem o desejo foi um dia contido?

Quem trará para si a maldição do sonho vivido?

E sofrerá a pena dos condenados pelos deuses, pela

eternidade.




 A vassoura Marjorie 


Marjorie,  a vassoura,  nasceu em 23 de dezembro de um ano qualquer. Fruto das mãos ágeis de um marceneiro falido e feita de partes alheias. Marjorie era completa.


Seus primeiros dias de vida, no depósito entre iguais e muitos outros diferentes, foi divertido.  Ouvia atenta, falas em línguas de partes distantes.


Mas foi um dia desses, em que estamos distraídos,  que a vida de Marjorie mudou. Acostumada aos elogios e galanteios, afinal fazia juz! Era alta e reta e sua palha, de raro tom dourado, tão bem atados, davam-lhe com certeza, ares de princesa. 


Muito diferente das comuns piaçavas, seu destino era estar nos palácios, segura em mãos que cumprem anos, corredores e aposentos, largos e caprichosos. E certamente dormindo quentinha, em abastados armários. 


Mas, contam as escovas, entristecidas, que pobre Marjorie! Esquecida  e encostada, foi vista sem ânimo nos sonhos. Fez-se em fim, no dia 7 de maio, poucos anos depois, em brasas.